Quanto custa, na verdade, ter um piano
Afinações duas vezes por ano, humidade entre 45% e 55%, mudanças de 150 a 500 € — e porque é que o piano comprado à sexta-feira não está afinado na segunda.
Um piano acústico é o único instrumento que se compra e se descobre, meses depois, que afinal se assinou uma subscrição. Não é uma peça de mobiliário com teclas: é uma estrutura de madeira com vinte toneladas de tensão lá dentro, que reage ao tempo que faz na sala onde está.
Isto não é um argumento contra ter um piano. É a conta que quase ninguém faz antes, e que convém fazer — sobretudo se o piano é para uma cena, para uma temporada, ou para o canto de um bar.
A compra é a parte mais barata
O preço do instrumento é o número que toda a gente vê. É também o único que se paga uma vez. Tudo o resto repete-se enquanto o piano existir: afinação, humidade, regulação, e o dia em que tem de mudar de sítio.
A afinação não é um extra
Um piano afina-se duas vezes por ano. Não porque se desafinou de propósito, mas porque a madeira do tampo harmónico incha e encolhe com a humidade, e a tensão das cordas acompanha.
Em Portugal, uma afinação anda à volta de 100 €, mais deslocação. Duas por ano são 200 € e picos, todos os anos, sem falhar. Em dez anos são mais de dois mil euros só para o piano continuar a soar como deve.
Um piano novo, ou um que acabou de mudar de casa, precisa de mais do que duas no primeiro ano: as cordas ainda estão a assentar.
A humidade, que em Lisboa é mesmo um problema
O intervalo em que um piano está bem é estreito: entre 45% e 55% de humidade relativa. Os fabricantes divergem nos extremos — a Steinway recomenda 45 a 50%, a Bösendorfer 40 a 60% — mas o meio é o mesmo.
O que acontece fora disso:
- Abaixo de 40%, a madeira encolhe. O tampo harmónico e os cavaletes racham. Isso não se desfaz: repara-se, caro, ou vive-se com o piano pior.
- Humidade a mais oxida as cordas e as cravelhas, e faz as teclas ficarem lentas e presas.
Ora, uma casa em Lisboa passa o verão com ar húmido do mar e o inverno com aquecimento a secar as salas. É precisamente o vaivém que o piano não gosta — e é por isso que os pianos que vivem em salas com muita janela, ou encostados a um radiador, envelhecem mais depressa do que os outros.
Onde o piano fica é uma decisão técnica
Não é onde sobra espaço. É:
- Longe de uma parede exterior, que é sempre a mais fria e a mais húmida.
- Longe de radiadores, lareiras e saídas de ar condicionado.
- Fora do sol direto, que estraga o acabamento e aquece a estrutura de um lado só.
Num décor, isto raramente é possível — e é uma das razões pelas quais um piano de rodagem precisa de um técnico por perto em vez de uma afinação e um adeus.
O que quase ninguém faz: regulação e entoação
Afinar é acertar a altura das notas. Regular é acertar a mecânica: o curso das teclas, o escape dos martelos, a repetição. Entoar é trabalhar o feltro dos martelos para o som ser mais doce ou mais aberto.
Nenhuma das duas se faz todos os anos, e é por isso que se esquecem. Um piano que nunca foi regulado não avaria — apenas vai ficando pior devagar, ao ponto de o dono achar que já não gosta do instrumento quando o que não gosta é do estado dele.
Mudar um piano custa entre 150 e 500 euros
Um vertical anda pelos 230 kg e uma cauda de estúdio passa dos 400. Não é trabalho para amigos com uma carrinha: são transportadores de pianos, com estrado, cintas e proteção de portas e chão.
O preço vai de 150 € numa mudança fácil até 500 € quando há escadas, curvas apertadas ou distância. E, mudança feita, o piano tem de ser afinado outra vez — o que acrescenta os 100 € da afinação a cada ponta da viagem.
Um piano abandonado não se afina num dia
Esta é a parte que apanha as produções desprevenidas, e é uma questão de calendário, não de dinheiro.
Um piano que passou anos sem afinação está muito abaixo do tom. Não se pode simplesmente puxá-lo até ao lá 440 numa tarde: subir toda a tensão de uma vez parte cordas e chega a rachar cavaletes. O que o técnico faz é uma subida de tom primeiro, e só depois uma afinação a sério — e mesmo assim o piano precisa de duas a quatro afinações ao longo do primeiro ano para se aguentar no tom. Nos casos piores, são várias visitas só para lá chegar.
Traduzindo para uma folha de serviço: o piano que se compra na sexta-feira não está afinado para a segunda. Não há orçamento que resolva isso, porque o que falta é tempo.
A conta do piano "grátis"
Aparecem sempre. Alguém herdou um vertical e quer que ele saia de casa. O preço é zero e a conta é esta:
| O piano | 0 € |
|---|---|
| Transporte até ao destino | 150 a 500 € |
| Subida de tom e afinações do primeiro ano | 200 a 400 € |
| Antes de tocar uma nota | 350 a 900 € |
E isto assumindo que o instrumento está são. Se tiver o tampo rachado, as cravelhas soltas ou os feltros comidos pela traça, a reparação custa mais do que o piano vale, e o passo seguinte é pagar outra vez o transporte para o levar dali.
Para uma produção, a conta é ainda pior: compra-se, paga-se para o trazer, paga-se as afinações que não chegam a ficar prontas a tempo, e no fim da rodagem fica-se com 230 kg de piano para resolver — que é mais uma mudança, e mais 150 a 500 €.
Quando comprar faz sentido
Faz sentido para quem toca todos os dias, durante anos, no mesmo sítio. Aí o piano é um instrumento, não uma despesa, e a manutenção é o preço normal de o ter afinado como deve ser.
Não faz sentido quando o piano é para uma cena, para uma temporada, ou para estar num sítio onde ninguém o vai cuidar — um bar, um átrio de hotel, uma loja, um estúdio que grava com quem aparecer.
Nesses casos, alugar não é a opção preguiçosa: é a que faz a conta certa. A afinação, a humidade, a regulação e o técnico deixam de ser um problema seu e passam a estar incluídos. E quando a temporada acaba, o piano vai-se embora — em vez de ficar a ocupar espaço e a pedir afinações.
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