Porque é que aquele piano usado é tão barato
Cravelhas que não seguram o tom, caruncho que passa para o resto do armazém, traça nos feltros e tampos rachados — o que o preço de um piano barato está mesmo a dizer.
Aparece um anúncio: piano vertical, bom estado, 200 €. Ou nem isso — "oferece-se, é só vir buscar". A pergunta certa não é se é uma pechincha. É porque é que ninguém o quis pelo preço a que os pianos bons se vendem.
Quase sempre a resposta é uma de três, e nenhuma se vê numa fotografia.
Não está desafinado. Não segura a afinação.
São coisas diferentes, e a diferença é tudo.
Um piano desafinado afina-se. Um piano que não segura a afinação tem as cravelhas soltas no cepo — o bloco de madeira onde as cravelhas estão enterradas e que aguenta a tensão de todas as cordas. Quando esse bloco seca, racha ou se cansa, a cravelha roda e a corda perde tensão. O técnico afina, o piano soa bem nessa tarde, e ao fim de duas semanas está outra vez em baixo.
Isto não se resolve afinando mais vezes. As saídas são:
- Remendo: colar as cravelhas problemáticas ou passar a um calibre acima. Barato, e ganha-se tempo, não o instrumento.
- Recravelhar o piano todo: trabalho de dias, na ordem do milhar de euros.
- Substituir cepo, cravelhas e cordas: dias ou semanas de oficina e vários milhares de euros.
Num piano de 200 € isto é absurdo, e é por isso que ele custa 200 €. O mercado já pôs a reparação no preço.
Há ainda um detalhe que apanha quem compra por telefone: um piano velho e muito em baixo não se pode puxar até ao lá 440 de uma vez, porque parte cordas. Falamos disso com mais pormenor em quanto custa, na verdade, ter um piano.
O caruncho, que não fica só no piano
Um piano tem muita madeira macia — e a madeira macia é exatamente o que o caruncho procura. Entra-se nele como se entra em qualquer móvel velho: o piano esteve pousado num soalho infestado, ou ao lado de uma cómoda que já o tinha.
Três coisas que convém saber:
- O que se vê é a parte pequena. Se há furos e serrim fino debaixo do piano ou nas costas, há larvas onde não se vê. Os furos são a porta de saída, não a casa.
- Tratar não é passar um produto. O tratamento a sério é fumigar o instrumento inteiro, numa empresa especializada, e substituir a madeira já comida. Não é trabalho de fim de semana e não é barato.
- Espalha-se. O caruncho não fica no piano por educação: passa para o resto da madeira que estiver por perto.
Esta última é a razão pela qual nós não aceitamos um piano velho sem o ver primeiro. Um instrumento infestado que entre num armazém com outros instrumentos deixa de ser um problema de 200 € e passa a ser um problema do armazém inteiro. Para uma produção com décor de época, o raciocínio é o mesmo.
A traça, que come o som
Menos falada e igualmente cara: a traça ataca os feltros — os dos martelos e os dos abafadores. Um piano guardado anos numa casa fechada pode ter os martelos comidos em zonas inteiras do teclado. O piano toca, mas há notas que soam mortas e outras que não abafam.
Repor feltros de martelos é substituir peça a peça, e o custo aproxima-se depressa do valor do instrumento.
O tampo rachado
O tampo harmónico é a superfície que faz o som existir. Racha quando o piano viveu anos em ar demasiado seco. Uma racha não faz o piano calar-se — tira-lhe projeção e sustentação, devagar, sem que nada pareça avariado.
É a avaria mais fácil de não ver e a que mais explica um piano que "não tem som" sem se perceber porquê.
O que ver em cinco minutos, antes de dizer que sim
Não substitui um técnico, mas elimina metade dos casos:
- Por baixo e por trás. É onde estão os furos de caruncho e o serrim. Levar uma lanterna.
- Perguntar quando foi afinado e a que tom. "Há uns anos" e "não sei" são a mesma resposta. Um piano afinado abaixo do tom, de propósito, é um piano que já não aguenta o tom.
- Tocar todas as teclas, uma a uma. Notas mortas, notas que não abafam, teclas lentas.
- Olhar para as cravelhas. Se estiverem enferrujadas ou com sinais de terem sido coladas, houve história.
- Cheirar. Um piano que viveu em humidade cheira a isso, e o cheiro chega antes do diagnóstico.
E se for mesmo para uma cena
Se o piano é para aparecer numa rodagem, há uma pergunta que resolve tudo antes das outras: tem de tocar?
Se não tem, um piano em fim de vida pode servir perfeitamente como adereço — desde que esteja limpo, seja da época certa e não traga bicho para o décor.
Se tem de tocar, ou se há som direto, então nada disto é opcional: precisa de um instrumento que segure o tom durante os dias de rodagem, afinado no local, com alguém que o possa retocar entre planos. E aí a conta de comprar deixa de fazer sentido muito antes de se falar em caruncho.
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