Pianos Yamaha para rodagem e estúdio: que modelo serve que cena
Do b3 ao C7X: tamanhos, pesos, som, acabamentos, Silent e TransAcoustic — e porque é que dois verticais de 121 cm não são o mesmo piano nem valem o mesmo ao seguro.
Entre num estúdio de gravação em Lisboa, em Londres ou em Nova Iorque e há uma boa hipótese de o piano de cauda ser um Yamaha. Não é falta de imaginação: é o instrumento que aguenta viajar, que soa da mesma maneira em janeiro e em agosto, e cujo som se encaixa numa mistura sem obrigar ninguém a lutar com ele.
Para quem monta uma cena, escolher o piano são três decisões ao mesmo tempo: o que cabe na sala, o som que a cena precisa e o que a câmara vai ver. Raramente apontam todas para o mesmo instrumento. Este artigo separa as três.
Os nomes, depressa
A nomenclatura da Yamaha mudou duas vezes desde os anos 70, e isso confunde toda a gente que lê uma lista de aluguer.
Caudas:
- Série G — as caudas dos anos 60 até ao início dos anos 80: G1, G2, G3, G5, G7. Ainda aparecem muito no mercado usado e em estúdios que nunca tiveram razão para as substituir.
- Série C — substituiu a G nos anos 80 e ficou até 2012: C1, C2, C3, C5, C6, C7. O C7 é, provavelmente, o piano de cauda mais gravado das últimas décadas.
- Série CX — a geração atual, lançada a 12 de outubro de 2012 para substituir a série C. Mesmos comprimentos, com quadro, cavalete e tampo harmónico redesenhados, e materiais herdados do CFX.
- CF e CFX — os pianos de concerto feitos à mão em Hamamatsu. O CFX, de 275 cm, chegou em 2010 depois de quase duas décadas de desenvolvimento, e é o instrumento de sala grande e de concurso internacional.
- Série S (S3X, S5X, S6X, S7X) — construção artesanal, entre a CX e a CF.
- GB1K, GC1, GC2 — as caudas de entrada, mais curtas e mais baratas.
Verticais, onde quase nada mudou em cinquenta anos:
- U1 (121 cm), U2 (127 cm) e U3 (131 cm) — os verticais que toda a gente conhece. Estão em escolas, conservatórios, casas e estúdios desde os anos 60, e são feitos no Japão.
- YUS1 (121 cm), YUS3 e YUS5 (131 cm) — a linha premium atual, também japonesa, com componentes da série CX.
- b1 (109 cm), b2 (113 cm) e b3 (121 cm) — a linha de entrada, fabricada na Indonésia.
- UX-1 e UX-3 (e variantes como o UX-30) — a série com o travejamento em cruz nas costas, feita no Japão e descontinuada em 1997. Só existe em segunda mão.
- P116 (116 cm) e P121 (121 cm) — a linha institucional, pensada para escolas e salas de ensaio. Foi feita no Reino Unido até 2008 e passou depois para a Indonésia.
Uma nota que poupa discussões: os números da série G correspondem aos mesmos comprimentos da série C que a substituiu. Um G3 e um C3 ocupam o mesmo chão. Meça sempre antes de assumir — um piano usado pode ter sido reconstruído e as fichas antigas circulam com erros.
Tamanhos: o que cabe onde
O comprimento de uma cauda decide duas coisas: o som (cordas mais longas, graves mais definidos) e se a peça entra pela porta.
| Modelo | Tipo | Altura ou comprimento | Onde costuma servir |
|---|---|---|---|
| b1 / b2 | Vertical | 109 / 113 cm | Quarto, corredor, plano fechado |
| P116 | Vertical | 116 cm | Escola, sala de ensaio |
| b3 / U1 / YUS1 / P121 | Vertical | 121 cm | Sala de estar, escola, bar |
| U2 | Vertical | 127 cm | Sala de estar, estúdio |
| U3 / UX-3 / YUS3 / YUS5 | Vertical | 131 cm | Sala grande, estúdio de ensaio |
| GB1K | Cauda | 151 cm | Sala pequena onde a silhueta importa mais que o som |
| C1X | Cauda | 161 cm | Apartamento, décor apertado |
| C2X | Cauda | 173 cm | Sala média |
| C3X | Cauda | 186 cm | O tamanho mais comum em estúdio e em sala pequena |
| C5X | Cauda | 200 cm | Sala grande, palco pequeno |
| C6X | Cauda | 212 cm | Palco, auditório médio |
| C7X | Cauda | 227 cm | Estúdio de gravação, palco, auditório |
| CFX | Cauda de concerto | 275 cm | Sala de concerto, grande palco |
Regra grosseira para quem está a escolher em cima do joelho: até 186 cm para uma sala de casa, 186 a 227 cm para estúdio, 227 cm ou mais para palco. Uma cauda quer o dobro do seu comprimento em espaço livre à volta, para o técnico trabalhar e para a câmara ter de onde escolher.
Dois pianos de 121 cm não são o mesmo piano
Repare na tabela: o b3, o U1, o YUS1 e o P121 têm todos 121 cm de altura. Do outro lado da sala, e num plano geral, são indistinguíveis. Debaixo de um microfone, não são o mesmo instrumento nem por sombras.
- O b3 é feito na Indonésia e é a linha de entrada da marca.
- O U1 e o YUS1 são feitos no Japão, com outra mecânica, outros materiais e um preço em novo várias vezes superior.
- O P121 é a versão institucional, desenhada para aguentar uso pesado numa escola.
Isto interessa por duas razões práticas. Primeiro, o som: se o piano toca e o som grava, a diferença ouve-se. Segundo, o valor de substituição que vai para o seguro da produção: um vertical de 121 cm pode valer três ou quatro vezes mais do que outro vertical de 121 cm, e é o modelo — não a altura — que determina esse número.
Quando pedir um piano, peça pelo modelo. "Um vertical de 121" não chega. E aos 131 cm passa-se exatamente o mesmo, como se vê a seguir.
O UX: o U3 que os estúdios procuram
Entre os verticais usados há um nome que aparece sempre nas conversas de estúdio: a série UX, feita no Japão e descontinuada em 1997.
O sinal exterior é a cruz nas costas — um travejamento em X no quadro traseiro, que dá rigidez e ajuda a afinação a aguentar-se. Vale a pena ser honesto: técnicos que afinaram centenas destes pianos dizem que a cruz, por si, não muda o som.
O que muda o som no UX-3 é outra coisa. Com a mesma altura de um U3 — 131 cm — tem as cordas graves mais compridas. Isso ouve-se: mais definição em baixo, que é precisamente o que se pede a um vertical quando ele tem de aguentar uma gravação e não apenas encher uma sala. O UX-3 foi feito entre 1983 e 1988; o UX-1 é a versão mais baixa da mesma ideia.
Para uma rodagem, isto assenta bem por duas razões. São pianos dos anos 70, 80 e 90, portanto certos de época sem esforço nenhum. E como não se fabricam desde 1997, só aparecem em segunda mão — com a idade, o desgaste e o móvel de um piano que teve vida, em vez do brilho de fábrica que denuncia um décor de 1978 à primeira olhadela.
Som: porque é que os estúdios escolhem o C7
O carácter Yamaha é conhecido: ataque rápido, fundamental forte, agudo brilhante e claro. Onde um Steinway hamburguês tende a envolver e a misturar-se, o Yamaha separa-se. Num take de piano sozinho isso pode soar duro; numa mistura com bateria, baixo e guitarras, é exatamente o que faz o piano continuar audível sem o engenheiro andar a cortar frequências à volta dele.
É por isso que o C7 aparece em tantas gravações de pop, rock, jazz e televisão: microfonado de perto, dá um som pronto a usar. E é por isso que, para um concerto de música de câmara ou um drama de época com música ao vivo, vale a pena ouvir alternativas primeiro.
Duas coisas que costumam ser mal contadas:
- Os Yamaha antigos não são todos brilhantes. Um C7 dos anos 80 com martelos gastos pode estar bastante mais escuro do que um CX de fábrica. O carácter de um piano usado é tanto do estado dos martelos como do modelo.
- A entoação resolve muito. Um técnico consegue amaciar ou abrir um piano de forma significativa em duas horas de trabalho nos martelos. Se o som não é bem o que a cena precisa, diga-o antes da entrega, não no dia.
Na câmara: o que ninguém pensa até estar no set
O acabamento normal de um Yamaha é preto polido. Na sala parece bem; debaixo de projetores é um espelho. Reflete as luzes, o teto, o operador de câmara e por vezes a própria câmara. Quem já iluminou um piano preto polido sabe que metade do tempo se passa a esconder coisas do reflexo.
O que costuma resolver:
- Acabamento acetinado ou em madeira em vez de preto polido — nogueira e mogno acetinados existem em muitos verticais e nalgumas caudas, e são muito mais fáceis de iluminar. São também mais credíveis num décor dos anos 70 do que um preto espelhado.
- Tampo a meia haste, em vez de aberto de todo: muda a silhueta, tapa parte do reflexo e continua a ler como piano de cauda.
- A marca no tampo da frente. Nem todas as produções podem mostrar marcas. O logótipo da Yamaha pode ser tapado ou removido — mas isso combina-se antes, com quem aluga o instrumento, e não se resolve com fita-cola no dia da rodagem.
E um detalhe de continuidade: um vertical dos anos 70 num décor dos anos 70 tem de ter a idade certa por fora. A linha U mudou pouco, o que é uma boa notícia; mas os pormenores dos pedais, das dobradiças e do desenho do móvel denunciam a década a quem sabe.
Peso, escadas e afinação
Um piano não é um adereço que se leve ao ombro. Estes são os pesos dos modelos atuais, como a Yamaha os publica:
| Modelo | Peso |
|---|---|
| U1, vertical de 121 cm | 228 kg |
| U3, vertical de 131 cm | 235 kg |
| GB1K, cauda de 151 cm | 261 kg |
| C1X, 161 cm | 290 kg |
| C2X, 173 cm | 305 kg |
| C3X, 186 cm | 320 kg |
| C5X, 200 cm | 350 kg |
| C6X, 212 cm | 405 kg |
| C7X, 227 cm | 415 kg |
| CFX, 275 cm | cerca de 490 kg |
Repare numa coisa que apanha muita gente de surpresa: a cauda mais pequena da gama pesa mais do que o maior dos verticais. O GB1K de 151 cm são 261 kg, contra 235 kg de um U3. "Cauda pequena" não quer dizer fácil de mover — quer dizer três pernas para desmontar, um estrado próprio e mais gente a pegar.
Isto quer dizer transportadores de pianos a sério, carro apropriado, proteção de portas e chão, e uma conversa sobre escadas antes de aceitar a data. Uma cauda sobe escadas — desmontada, com equipa e tempo. Um elevador de serviço muda tudo.
Depois há a afinação. Um piano transportado desafina, sempre. O calor dos projetores e o ar condicionado de um estúdio fazem o resto. O procedimento sensato é entregar na véspera, deixar assentar, e afinar no local no dia, com o técnico disponível para retocar entre planos se houver som direto.
Silent, TransAcoustic e Disklavier: três sistemas que resolvem problemas de rodagem
A Yamaha vende três tecnologias sobre pianos acústicos normais. As três resolvem problemas concretos num set, e vale a pena saber distingui-las.
- Silent (nos verticais, modelos SC e SH) — uma barra impede os martelos de tocar nas cordas e o som passa a sair por auscultadores. O piano continua a ser um piano acústico, com a mecânica e o teclado reais, mas não faz barulho na sala. Serve para o ator ensaiar num hotel, e serve para ter um piano a ser tocado em cena enquanto o som está a gravar diálogo.
- TransAcoustic (modelos TA e TC) — em vez de auscultadores, usa o próprio tampo harmónico do piano como coluna. Os sons digitais saem de dentro do instrumento, sem colunas nem PA em campo. Num plano em que não pode haver equipamento à vista, é a diferença entre poder e não poder gravar.
- Disklavier — piano acústico com reprodução. Grava-se a interpretação com um pianista a sério e o piano toca-a sozinho, com as teclas e os pedais a mexer. O ator só tem de acompanhar o movimento das mãos. Poupa dias a produções onde o protagonista não toca piano, e a imagem é verdadeira: são as teclas reais a descer.
Resumindo a diferença: o Silent tira som da sala, o TransAcoustic põe som na sala sem colunas, e o Disklavier toca sozinho.
Que piano para que cena
- Sala de estar, anos 70 ou 80 — vertical U1, U3 ou UX-3 em nogueira acetinada. É o piano que essa casa teria mesmo.
- Estúdio de gravação — C7, ou C3 se o espaço não der. É o cliché porque é verdade.
- Bar ou clube de jazz — cauda de 173 a 186 cm, ou um vertical encostado à parede se a sala for pequena.
- Sala de concerto — CFX ou C7, tampo aberto, palco preparado.
- Escola ou conservatório — vertical da linha P ou b, acabamento sóbrio, sem brilho. É o que essas salas têm de verdade.
- Videoclipe ou publicidade — preto polido, tampo aberto, e um plano de iluminação que conte com o reflexo.
- Cena com diálogo por cima do piano — Silent, ou um piano que não toca de todo.
O que nos dizer quando pedir um piano
Um pedido com esta informação é respondido com um valor firme em vez de uma pergunta:
- Datas de entrega, de rodagem e de recolha.
- Morada, andar e acesso: escadas, elevador de serviço, largura das portas, se há lugar para o carro.
- Se tem de tocar ou se é só imagem. Muda o preço e muda a peça.
- Se aparece em câmara e com que luz — para escolher o acabamento.
- Se pode mostrar a marca.
- Se há som direto a gravar durante os planos.
- A época da cena, para o instrumento não ser vinte anos mais novo do que a sala.
Com isso, conseguimos dizer no mesmo dia o que temos, o que custa e o valor de substituição para o seguro da produção.
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